Denise Deschamps, carioca, psicóloga e psicanalista apaixonada pelo cinema, poesia e artes em geral. Tenho paixão pela escrita, coisa que faço desde muito nova, aos 12 comecei a tentar e sigo nessa tarefa, entre contos, poesias e textos técnicos, escrever que é a paixão, fim em si mesmo, não há outra pretensão que essa, o próprio ato de escrever.

Em todas as tentativas há uma mistura disso tudo que sou, fala a psi e a poeta na poesia, fala a poeta invadindo a psi no texto técnico. As experiências ganham o papel(atualmente tela) em palavras, quase que como fazer uma faxina depois de uma festa.

Gosto da vida, das relações humanas, com tudo de alegria e angústia que o ato de viver traz, algumas vezes lindas experiências, outras as mais duras lições.

Sinto-me uma pessoa privilegiada pelo trabalho que escolhi, nele de alguma maneira a poesia se faz presente ou ganha matéria prima no cotidiano. Tudo isso aí premiado pelo ato maior da minha vida, ser mãe de dois rapazes que são a luz da minha vida.

Outros links em que os amigos podem me ler:

Lembranças de Dona Joana

Brinco feliz
Esperando de frente ao portão
Lá fora passa, o cachorro
Da Dona Joana
Como é lindo esse nome
Não o nome de Joana
Mas, o de seu cachorro:
- Aristoceno.
- Venha cá, Aristoceno!
Deixe-me afagá-lo
Dona Joana não gosta
Quando falamos com o seu cachorro
Pobre dona Joana!
Balzaquiana e solteira
Solteira sim, é verdade.
Ei, chegou João
Oi! Olá! Como vai meu amigo?
( gostaria chamá-lo de amor)
já nem lembro dona Joana
que segue ao longe,
ela e seu cachorro.
A noite chega
Rezo à Deus
Nunca me faça
Uma dona Joana.

Denise Deschamps



TERROR NOTURNO

Um grito horrendo cortou a noite
Suado acorda o homem
Trêmulo,
Atordoado
Procura.
Se pergunta
Quem gritou?
a mãe entra correndo
Coloca-o
Rapidamente,
ternamente em seu colo.
Ele estremece e chora
Já não se pergunta
Mais nada
Soluços, soluços.
O copo cai,
fazendo um estrondo.
Trovoada,
Gritos,
Sangue derramado
escorre pelos olhos
Assustados
Do homem esquizofrênico.

Denise Deschamps



MAGIA NEGRA

Vagarosamente arrasta-se a cobra
Localiza a presa sem emoção
Silenciosamente se move
Parece desistir
Pára
Imóvel,
Inerte e morta
Pula assustando a vítima, que
tenta fugir, debate-se,
arranha e geme.
Olhos escorrem lágrimas
Misturam-se no esforço do algoz
e desalento da presa
já sem vida.
Cogumelo no céu.
A luz tão luz
A cruz
De nada adiantou.
Matamos novamente o pai,
Suícidio coletivo.
Culpa e rancor.
Dormem abraçados os namorados,
nada feliz o embrião
da destruição...

(escrita na noite de 10 de setembro de 2001)

Denise Deschamps



CARTA ABERTA


Dona Joana e Dona Mariazinha
Cochilam discretamente em frente à televisão
Lá fora estouram bombas, mísseis e tiros
Vivemos tranquilos em um país pacífico
Globalizado
Sonham com sua roça
Cheiro doce da rapadura da infância
A notícia na TV anuncia a ascensão
De Hitler
Acordam e comemoram
Malditos muçulmanos
Sem Cristo, sem hóstia
Sem padres e vinhos
Derrama-se o sangue de Alá
Por sobre a mesa da Santa Ceia.
Dona Joana e Dona Mariazinha
Indiferentes
Voltam a cochilar
Exércitos de anjos verdes
Farão a redenção
Parem o mundo que eu quero descer!
Fugir com meus filhos para Marte
Ou mergulhar nos braços de um buraco negro
Ser consolada por Alá, Cristo, Jeová, Oxalá
Paz na Terra aos homens de boa vontade.
Um exército de Marias e Joanas
Marcha pelas ruas de Nova York
Pedem, elas, solenes e constritas
Justiça, justiça
Paz
Morte aos Muçulmanos!

Denise Deschamps



Cena comum

Hoje cheguei em casa chorando
Passava pela rua quando vi
Olhava para o outro lado
Quando me virando aleatoriamente
Encontrei com meus olhos
Virgem Santíssima deitada na rua
Pousava sob o seu colo
O próprio menino Jesus
Chorava de fome o pobre menino
Talvez também de frio
Abaixei-me e acariciei seus cabelos
Cheiravam a incenso e maconha
Agarrado com sua boca nos seios de sua mãe
Olhou-me
E não me desculpou
Levantei-me como uma pedra
Fria e pesada de mármore
Deixei-lhes algum dinheiro trocado
E foi esse o meu pecado.
Choro sem consolo
Sequer sou religiosa
Aliás tenho horror aos desse tipo
Mas hoje matei de fome e frio
O filho do Criador.

Denise Deschamps



MADRUGADA

A noite caiu
Pintando de negro a paisagem
Estrelas prateadas brilhando no céu
repleto, completo e cheio
enfeitando a cidade concreta, indiscreta
e nervosa.
Faróis fazem a iluminação para o grande show
- Respeitável público!
Invade o palco uma multidão de caras pintadas
Falando alto e fazendo estardalhaço
Saltam como bolinhas coloridas
De dentro de caixas brilhantes
Do outro lado os figurantes
Fazem as sombras
Rotos e esfarrapados
Espalham cenários de papelão e
cobertores cinza chumbo.
Música humana mistura aleatoriamente:
vozes, gritos, roncos, sirenes e choros
Uma luz difusa aparece roubando as estrelas
A multidão em agonia
Corre paras suas caixas brilhantes
Com gritos ainda mais alucinantes
Partem em fuga.
Os figurantes exaustos recolhem:
Latas, papelões, cobertores e identidades perdidas.
A garrafa cai e acorda o bebê que chora
Acordando toda a cidade concreta,
indiscreta e nervosa...

Denise Deschamps



Tropeçando

Ele caminhava pela rua em passos rápidos
Do alto enxergava meio turva
a distante calçada.
Alguém passou e esbarrou-lhe
a alma.
Descontente correu para o bar
Lavou as mãos e sentou-se à mesa
Bebeu,
Bebeu,
Sorriu.
Trôpego atravessou o beco
Ganhou a avenida
E de propósito, esbarrou
Abraçou e jogou ao chão
Tomado de amor
E de dor
A mulher assustada lutava
Tentava desvencilhar-se
Exaustos levantaram-se
Olharam-se profundamente
E sem uma palavra
Ganharam o mundo
Ou só o alugaram?
Em casa seu filho jogou-se em seus braços
Sereno pediu o jantar
Sentou-se e comeu seu bife, sangrando.
Ele e o bife
Seres se misturando
Sua mulher sentou-se ao seu lado
Com compaixão olhou-a
Seus olhos de boneca chamaram-lhe a atenção
Sorriu sereno em sua direção
Cantarolou no chuveiro
Marcou uma festa à fantasia
Varou a madrugada se procurando
Em velhos retratos
Acordou, se vestiu
E foi trabalhar.
Para sempre

Hoje me dei conta de
Que amo o amor
Amo amar alguém
E quando não amo
Saio amando a qualquer um:
o homem da esquina,
o tio de minha amiga,
o entregador de pizza,
até mesmo o terapeuta.
Suspiro sorridente enquanto a música toca
meu coração que dispara enlouquecido
de paixão.
O amor me mantém viva
alerta e pronta
adrenérgica.
Com amor, assisto ao noticiário
um pouco mais solidária e indignada
Não aceito qualquer coisa que me empurrem
Nem acredito em falsos fantasmas
Tampouco acredito em salvadores da pátria
Amada idolatrada...
Sou mais crítica quando amo
Mais amarga quando indiferente
Ontem meu príncipe passou por mim
olhou nos meus olhos e sorriu
E isso me bastou para cantar
essa canção de amor
Amor aos homens
e mulheres do planeta
em especial as crianças
Amor aos bichos
Irracionais e racionais
Amor às terras, águas e territórios
Baleias, golfinhos e micos-leão-dourado
O amor hoje e sempre me salvou
De emperdenir
Amargar
Até o fim.

Denise Deschamps



A PEDRA AZUL

A pedra brilhante soltava raios em minhas mãos
Azulada e perfeita
Atraía para si os raios de sol
Trazendo a alegria para os olhos
Arco-íris
Na íris, no céu e na pedra azulada
Azul, azul aquela pedra
Continha nela um frescor de vida nova brotando
Encostada à testa parecia o paraíso
O refúgio dos apaixonados
Ou das perseguidas bruxas da Inquisição
Tentaram tomá-la das minhas mãos
Que ensaguentadas resistiram
Não desferiram nenhum golpe
Apenas resistiram e se encravaram no azul
Daquela pedra fria de tão azul
Pedaço de céu de anil
Exemplo do Éden
Rolei pelo chão
Eu e a pedra
Enquanto me cravavam a espada no coração
Um prisma se abriu de dentro dos meus olhos
E vi toda a humanidade
Varrida do paraíso
Marchando como zumbis avermelhados
Cabelos em fogo e olhos injetados
Empunhei o azul da pedra
Que nos deu o planeta água
Vi a criança sair da barriga e gritar bem alto
E um tom celeste tomar tudo
E esfumaçando
Eu e a pedra
Acordamos assustadas
Com o mar a nos lamber os pés.

Denise Deschamps



Rótulo

Como o ar que se respira,
a água com a qual nos banhamos,
a comida saboreada,
o sexo que desfrutamos...
Como tudo àquilo que de sem nexo
ganha sentido no aleatório e indefectível.
Repete,
dissimula,
recomeça ...
O que a mente não acompanha
e os sentidos dominam.
Como um rastro
ou um rito de sobrevivência.
Vivemos
e é só.
Na solidão da existência.
Sob o olhar onisciente de um deus qualquer.
Escorremos dia após dia,
com parcimônia e paixão.
Como um copo de vinho tinto,
cravo e canela,
morte e compaixão.
Como alguma coisa que se derrama
e só nos resta secar
com a total certeza do desperdício
Seja isso, talvez, a existência.
realmente nada se perca
e tudo faça algum sentido.
Só nos resta esperar
e talvez em algum lugar
possamos assistir a edição
do filme inédito de nossas vidas
com direito a aplausos ou vaias,
aceitação ou perdão...

Denise Deschamps



Dança com os Homens

Hoje dancei na superfície da lua
pulei, fiz cambalhotas e contorções.
caí sem cansaço não encontrando o chão.
Planei como uma águia,
beijando de perto as estrelas.
Esquentei meu coração na curva do sol, e,
congelei-me sem pavor olhando nos olhos de Plutão.
Descobri frenética a constelação de Orange Metal.
Voltei à casa nos braços de anjos vestidos de branco.
Chorei de saudade lamentando o retorno.
Levantei-me sentindo dores
espasmos, fisgadas e contrações por todo corpo.
Engoli o café frio, o pão duro e o queijo borolento.
Segui a multidão apenas por sobrevivência
repeti metodicamente os movimentos mandados.
Nada senti quando me jogaram aos leões.
Caí inerte, destituída de qualidades
acatei sem reclamar o nome que me deram
e segui quando fui chamada...

Denise Deschamps



Na curva do rio

Na paisagem turva
embaçada pela lente fria
avisto um pássaro em vôo fenomenal
acompanho letárgica e anestesiada
faz frio na montanha gélida
escorrem lágrimas espontâneas
de meus olhos descrentes.
Grito, ruídos horrendos
acompanhando os sons do pássaro
Caio exausta no mato encharcado
me coço em pedras,
ferindo minha pele e rasgando minhas vestes
aguardo
pressinto
Tocaia sombria
Abro minhas asas negras
Levanto vôo perseguindo a presa
Caço
lanço-me,
plano feliz na paisagem imóvel
Faço um pouso manso
Perfeito
Inquestionável.
Guardo na caixa de metal
minha caça
Meu naco de vida
Meu coração apaixonado

Denise Deschamps



Para minha melhor amiga

Te mandei recados,sinais de fumaça
Pergaminhos e papiros
Para te explicar que,
Eu não quero ouvir verdades
Necessito: declarações de amor,
afetos incontidos,
piadas sem graça
abraços e beijos.
Dou de volta
todo o meu amor,
meus caquinhos colados,
meu coração vermelho
e negro.

Não quero conversar a sério
Comprometer intenções
Explicar o mundo
Tampouco minha vida
Não quero receitas de felicidade
Nem conselhos
Não vou ouvir casos parecidos
Nem possíveis soluções.
Quero o olhar amigo
A mão cúmplice
O incondicional amor
Não tenho escolha
Desconheço minha rota
Quanto mais caminho e corro
Mais me lanço em sua direção.
Me entrego à música alucinada
Volto pra minha casa cheia
e pro meu coração vazio
Feito coisa mal assombrada
Minha alma velha anseia juventude
Alguém mais macio do que eu
E que ao me olhar
Reveja antigas paisagens
E me devolva minha gargalhada
Sem acusações
Sem facas jogadas ao alvo.

Denise Deschamps



Sou eu

Diante do espelho
Em cacos
Me vejo
Revejo
Por fora
Quadrada, conservadora e moralista
Por dentro vulcão, arisca e promíscua
Em voltas me perco
Em palavras enlouqueço
Admiro incondicionalmente
A saudável loucura
A incontida rebeldia
Enquanto me amarro
Ao pé da mesa
Ao relógio de ponto
A pia de louças por lavar
Quebro pratos e copos
Enxugo as mãos nos retalhos
Me calo.
Não grito e não me desespero
Apenas sentada
Ouvindo o gotejar
Da torneira de minha vida
Vontade insana
De revirar as entranhas
E parir meus monstros
E diante do espelho
Por fora vulcão, arisca e promíscua
Por dentro quadrada, conservadora e moralista
Em cacos me perco
Em palavras revejo
Ao pé da mesa
Enquanto me amarro
Ao olho do furacão.

Denise Deschamps



Madrugada

Abre a porta a madrugada
sereno o seu semblante
e eu aqui nessa bancada.
Abre sedutora
a madrugada insone
seus braços de acolhida
me entrega solene os meus sonhos
me lança à vida com seus adrenérgicos pesadelos.
Abre a madrugada fria,
a janela de meu quarto
trazendo o doce aconchego
do meu macio edredon.
Abre a madrugada louca
a batida de bumbo do meu coração
me viro e reviro
enquanto te olho
tão meu.

Denise Deschamps



Adoro meus versos sombrios


Hoje tenho versos me apertando o gogó
asfixia e dor espremem as voltas de meu pescoço
hoje necessitaria de um grito ou dois
bem horrendos até cair desfalecida
já não me caibo dentro de mim
esgotei tudo que havia.
Perdida e desidratada de forças vitais
procuro um canto para vomitar
em gritos minha desesperança.
Tão estranha essa necessidade
muitas vezes só nos falta berrar
palavras e sons desconexos
cair inertes e esgotados
sem dor e sem amor
sem hoje e sem amanhã
pulsando como sobreviventes
no holocausto das nossas paixões.

Denise Deschamps



O Cavalheiro e a Donzela
(Uma Fábula pós-moderna)


Castelos, cárceres, celas, cavalos, resgates e seqüestros
Quem salva quem?
Quem veio buscar e quem há de partir?
Cavalheiro e donzela, encastelados seres
Quem é o libertador?
Quem se amarra às correntes?
Entre fantasia e ameaças cruéis
Dançam absortos
Cavalheiro e donzela
Prisão e liberdade
Encarceramento e libertação
Devolução e seqüestro.
Donzela da cabeça raspada
E disposição ímpar de ganhar o mundo
Cavalheiro encastelado
Rei Arthr, Fish King
Do coração partido
Sem Lancelot ou Percival
Se abate entre rugidos
Quem há de salvar
Cavalheiro e donzela?
Quem há de desejar
quebrar muros e arrancar as grades?
Há carcereiros também
Que querem ir pra casa descansar
Entre muros, cárceres, celas, cavalos
Resgates e seqüestros
Dançam absortos
Cavalheiro e donzela...

Denise Deschamps



Plano de vôo

Teu silêncio rasga o ventre em gritos horrendos
Teu vazio apaga o céu e as estrelas
Tua falta de vida mata e desola por onde passas
Sua doença necrosa tudo onde há vida e sangue
sua repetição é sua maldição
sua paralisia seu caminho
seu desafeto tua solidão.
Paira como um pássaro sem asas
se atira na mira do caçador
és miserável em sua dor
agarrado como crosta ao seu presságio
Infeliz ser que vaga pela terra
invejando humanos em suas humanidades
se escarnecendo daquele que tem esperanças
jogando lama onde cresce a flor do afeto
Pobre, és pobre
és morte em vida
és o ceifador disfarçado de agricultor
zeloso planta por onde passas
ervas daninhas, parasitas e dor
e... ainda rezas para seu deus?
Ouvir suas preces seria revelar
que anjos são tolos
e que vagamos inocentes
entre demônios, seres abissais e espanto.

Denise Deschamps



Esperança

Quem sou eu?
Sou onde não penso em mim
Me ausento onde me reconhecem
Olho a vida com espanto
Multidões humanas em desencanto
Amei um, amei muitos
Talvez ainda ame muitos, outros tantos.
Serei amada, não serei amada
Pior dor há do que a da ilusão?
Compramos espelhos colados
E vestes amarrotadas
Há dor em olhar em volta
Há sempre aquele pulsar de vida
Quem sou? Aonde vou?
Quem virá? Quem partirá?
Meu coração?
Sei que sou aquela que encontro na escuridão do quarto
Sei que sou aquela que geme nos braços do outro
Sei que sou a mulher errante que sobrevive
Sempre
Sei que a vida não é um jardim em flores
Olho a cada passo e vejo as ervas daninhas
Que crescem e se multiplicam entre as flores
Sou esse olhar vago e essa felicidade que inunda
Me chamam sempre, Esperança
Alguns chegam pra me acariciar
Outros trazem a faca escondida nas vestes
Sobrevivo
Cansaço, mergulho em sombras
E logo o dia amanhece
E logo a vida mais uma vez, faz-se em urgência
Olho e não sei se quem vem
Traz a faca ou o gesto nobre e largo
Me entrego
Não tenho como fazer de outro jeito
Batizada com uma maldição
Recomeçar, replantar, repovoar
Dar ao outro
Pequenos pedaços de mim
Quem sou?
Sou aonde me perco
Sou como a necessidade
Me entrego e me lanço
Enquanto mãos enfurecidas
Me apalpam e me querem
E me rasgam
Sem pedidos de desculpa
Levam pedaços
Nacos
Fragmentos
Reconstruo
Recomeço
Enquanto vejo de longe
Muito longe
Desperdiçarem meus nacos
Meus pedaços
Meus fragmentos.

Denise Deschamps



Outra vez...

Aprendi com a vida
Passos de dança entre músicas inaudíveis
Sei que a esperança é algo que renasce
Sei que o amor é um jogo solitário
Sei do desejo que enche de ais as noites
Seja inverno ou verão
Caiam as folhas do outono
Ou nasçam as flores da primavera
Olhar de anjo, pedidos de menino
e intenções de homem
É o que basta e,
Como gelo em vulcão
Derreto-me
Entrego-me
Mesmo antevendo grandes precipícios
Desejo que impera em meu corpo
Lavas incandescentes a queimar por toda a epiderme
Suo, respiro, transpiro em cheiros
Sentidos, paixão cega.
Entrego meu corpo e peço: rastreie-me
Desenhe mapas de descobertas
Explore,
Profundidade pressentida
Sublime gozo
Sei que me lanço ao vulcão em erupção
Sei do risco de aventurar-me
Mas sei também que só o que poderia me matar
Seria a hipotermia da negativa
No mais, renascerei em cinzas
Pro café da manhã
Ou para o vôo em gritos de águia
Respiro, entregue, arfante
Em um corpo de homem desejante
Prazer de ser objeto, chegada
Da explosão dos seus ais.

Denise Deschamps